Depoimentos

Eu sinto os meus direitos violados quando as pessoas me julgam pela minha aparência, por eu ser diferente, por eu não ser como a sociedade quer que eu seja.
— N.L. 14 anos, Sabará.

Sinto os meus direitos violados quando as pessoas me desrespeitam por eu ser diferente.
— C.R. 16 anos, Sabará.

Meus direitos foram violados quando os “home” me bateram e quase atiraram em mim.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Sou jovem e tive os meus direitos violados quando os policiais entraram na minha casa para me prender e me bateram na frente da minha mãe.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Eu tive os meus direitos violados uma vez que entrei no supermercado e ia pegar uma barra de chocolate e então chegou um cara de terno e gravata e me perguntou se eu precisava de alguma coisa, e ficou me olhando, como se eu estivesse ali para roubar. Então eu deixei o chocolate lá e disse pra ele que eu não precisava daquele supermercado, que tinham vários onde eu podia comprar. Mas a situação foi humilhante.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Sou jovem e tive meus direitos violados porque na quebrada onde eu vivia ninguém tinha a oportunidade de praticar esportes.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Sou jovem e tive meus direitos violados quando os policiais forjaram o crime para mim, só porque eu era morador da favela, pobre.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Sou jovem e tive meus direitos violados quando apanhei muito dos policiais em uma abordagem.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Sou jovem e tive meus direitos violados quando entrei para a vida do crime.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Sou jovem e tive meus direitos violados quando a diretora de uma escola não me deixou estudar porque eu estava sob medida socioeducativa.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Tive meus direitos violados quando eu fui preso e o policial me chamou de bandido, safado, sem apurar nada, sem me escutar, invadindo o meu barraco, apontando arma na cara da minha mãe. Isso é o que o sistema faz com gente como eu, que vem da periferia, pobre. Eles sempre praticam abuso de poder e violam os nossos direitos.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Eu tive os meus direitos violados quando eu fui enquadrado pelo artigo 157, e então eu fui falar com o meu advogado, que era público, porque eu não tinha dinheiro para pagar, e ele me disse bem assim: “eu só estou te libertando porque o governo me paga, porque eu sou obrigado, porque senão você ia mofar na cadeia. Esse é o meu trabalho. Então não faz mais isso porque eu não vou tirar você de novo”. Isso foi humilhante!
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Tive os meus direitos violados quando o sistema não me deu oportunidades para estudar, para poder ter um trabalho de qualidade, para poder transitar, devido à falta de dinheiro para a passagem, quando eu tive vontade de ir ao cinema e não tinha dinheiro para a entrada, quando eu quis ir ao teatro e não tinha dinheiro, quando eu quis me expressar e não pude, porque a polícia não me deixa falar o que eu penso, só o que eles querem ouvir. Todos esses foram momentos em que eu tive os meus direitos violados.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Tive meus direitos violados quando eu fui preso e os policiais entraram na minha casa, rasgaram minhas roupas, levaram meus tênis, me bateram. Cheguei na delegacia todo machucado, humilhado.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Tive meus direitos violados um dia que eu entrei na loja e o segurança ficou me seguindo, achando que eu ia roubar algo.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Tive meus direitos violados uma vez que entrei no ônibus, e só por causa da minha forma de vestir o motorista achou que eu não tinha dinheiro e chamou o fiscal. Nesse dia eu estava com 600 reais na carteira. E ele nem esperou que eu tirasse o dinheiro para pagar e começou a me insultar. E eu queria que isso mudasse, que as pessoas tratassem a gente com respeito, independente da roupa que a gente veste.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Tive os meus direitos violados quando fui preso, acusado de portar drogas e tinha sido tudo armado pelo policial que não gostava de mim. Depois ele me bateu na frente da minha mãe. Bateu tanto que eu tive que ir para o hospital. Isso tem que mudar!
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Eu tive os meus direitos violados quando me prenderam na frente da minha mãe e me chamaram de filho da puta, me bateram, tratando a gente como se fossemos cachorros. E essa situação tem mudar.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Tive os meus direitos violados quando eu fui preso. Ganhei vários tapas na cara dos policiais. E eles disseram que se eu falasse isso para a polícia eles iam matar a minha família. Aí eu fiquei com medo, não falei, e estou aqui até hoje. Medo de fazerem algo com a minha família. Eu apanhei muito e eles forjaram muita coisa para me incriminar. Eles fazem isso não só comigo, mas com todos, e isso tem que acabar.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Meus direitos foram violados quando eu disse que ia visitar um colega meu que estava em semiliberdade e me disseram que eu não podia, porque eu era criminoso, e que eu não podia conversar com ninguém, que eu tinha que ficar isolado. E isso tem que mudar no Brasil, porque esse é o país da injustiça.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Eu tive os meus direitos violados uma vez que entrei no ônibus e o motorista me perguntou se eu tinha o dinheiro da passagem porque eu estava com uma camisa do Bob Marley, de boné. Só porque eu estava com um estilo diferente das pessoas que estavam dentro do ônibus ele me discriminou. Então eu perguntei se ele perguntava a todas as pessoas se tinham dinheiro para a passagem e ele mesmo disse que não. Era comigo.
— Jovem em regime de semiliberdade, Belo Horizonte.

Vou contar uma história de uma amiga minha. Ela mora no morro e foi visitar uma galeria de arte. O segurança também mora no morro, e ele ficou seguindo ela como se ela fosse fazer qualquer coisa errada, roubar, tocar as coisas, como se ela não soubesse como é o ambiente. Ela se sentiu como se fosse um membro inferior da sociedade, um ser estranho que não pudesse pertencer àquele espaço. É uma sensação que eu não sei transmitir. Quando ela me contou a história, ela chorou. Dizia que se sentia como se fosse um bicho, um animal que não pudesse transitar, sendo que a pessoa que fez isso com ela tem a mesma origem. E ela se perguntava: mas se ele mora no morro, na favela, por que ele me impede de transitar? Por que eu tenho que ser negligenciada?
— L. A., 19 anos, Belo Horizonte.

Uma vez saí com o meu pai para comer em um restaurante e de repente começou uma discussão sobre o que um homem devia ou não fazer. Em um momento a discussão passou ao tema religioso. E então meu pai disse que era patético para um homem ter desejo por outro homem. Eu senti como se tivesse tomado um soco na cara porque eu sou bissexual, sinto atração por homens e me sinto bem com isso. Então foi como se o meu pai tivesse me dado um tapa na cara. Eu ainda não consegui contar para ele que eu sou bissexual porque eu tenho muito medo do que ele poderia fazer quando eu falasse isso. E não foi só naquele momento, mas eu sinto que constantemente eu tenho o meu direito violado, porque eu não posso ser eu mesmo. Eu não posso ser quem eu sou, não posso gostar do que eu gosto, nem fazer as coisas que eu gosto de fazer, nem falar como eu gosto de falar. Tenho que criar uma personalidade para minha família e outra para fora de casa. E isso não é algo que eu gosto.
— V. A., 20 anos, Belo Horizonte.

Algo que eu vejo como um ato de violência, de desrespeito, é quando uma pessoa fica te olhando durante um bom tempo, te encarando, porque isso é algo muito invasivo. Por exemplo, você está em um ponto de ônibus e a pessoa te olha uma vez, e outra vez, e outra vez, e isso passa a ser uma invasão, porque ela está me julgando pela minha forma, e não pelo meu conteúdo. Então eu acho que isso é uma forma de desrespeito. Outra coisa é quando vou ao supermercado e o segurança, ou o vendedor começa a reparar demais como se eu fosse suspeito de algo. Então ele começa a me perseguir sem motivos. Isso é um ato de injustiça.
— D. P., 24 anos, Belo Horizonte.

Às vezes eu me sinto mal com algumas coisas dentro da minha casa. Por exemplo, quando eu escuto os meus avós ou a minha mãe falando algumas coisas e eu não posso responder, não posso discordar. Nós somos seres muito individualistas e achamos que sempre temos a razão. E isso é uma violação do meu direito de dizer, de falar, de me expressar. Por exemplo, minha mãe é muito machista. Ela acha um absurdo que eu use short. Eu sei que ela está preocupada com a minha segurança. Mas ela nunca me perguntou o que eu acho disso. A forma de tratar o assunto é sempre discutindo, brigando. Às vezes eu perco, às vezes eu ganho. Mas normalmente, é uma perda para os dois lados.
— A. I., 18 anos, Belo Horizonte.

Eu acho que às vezes a juventude viola os seus próprios direitos. Por exemplo, quando as pessoas acham que mandam na vida dos seus namorados. É o que está acontecendo agora com minha irmã e sua namorada. Elas terminaram há um mês, mas a garota não a deixa em paz. Não a deixa conversar com outras pessoas, sempre acha que as amigas dela são namoradas etc. Então ela começou a ameaçar a minha família. Ela mora numa região onde para ela conseguir uma arma para fazer mal a alguém da minha família é muito fácil. E eu acho que ninguém deve ter o direito de querer tomar decisões pelos outros, porque cada um deve ser livre de fazer suas próprias escolhas. E o mais importante é não deixar, não permitir que isso aconteça com a gente. Porque eu acho que o principal motivo para isso acontecer em uma relação é quando a pessoa é muito passiva e deixa a situação chegar a este extremo. Então uma dica é ser firme nas suas relações e respeitar a individualidade de cada um.
— P. C., 19 anos, Belo Horizonte.

Um amigo me contou a história de um dia que ele saiu com os amigos dele para uma boate e dentro do local ele deu um selinho em um menino. E isso causou um tumulto enorme, vieram os seguranças e o expulsaram da boate. Depois ele foi agredido do lado de fora. E eu achei isso um verdadeiro absurdo.
— H., 21 anos, Belo Horizonte.